Aula 4: Volatilidade e Modelos GARCH

Modelando o risco que muda ao longo do tempo

Objetivos de Aprendizagem

  • Identificar fatos estilizados de séries financeiras
  • Formular modelos ARCH e GARCH para volatilidade condicional
  • Comparar variantes (EGARCH, GJR-GARCH) e suas motivações
  • Aplicar modelos de volatilidade a ativos reais

De Séries Temporais para Finanças

Até agora, trabalhamos com séries que tipicamente têm tendência e sazonalidade (vendas, PIB, inflação). Séries financeiras — retornos de ações, câmbio, commodities — são fundamentalmente diferentes. Os retornos geralmente não têm tendência nem sazonalidade forte, mas apresentam fenômenos que exigem novos modelos.

Retorno e Log-Retorno

Retorno simples \[R_t = \frac{P_t - P_{t-1}}{P_{t-1}} = \frac{P_t}{P_{t-1}} - 1\]

Log-retorno (retorno continuamente composto) \[r_t = \ln\left(\frac{P_t}{P_{t-1}}\right) = \ln(P_t) - \ln(P_{t-1})\]

DicaPor que usar log-retorno?
  1. Aditividade temporal: \(r_{t:t+k} = r_t + r_{t+1} + \cdots + r_{t+k}\) — facilitando cálculos
  2. Simetria: uma queda de 50% (\(R = -0.5\)) exige alta de 100% (\(R = +1.0\)) para recuperar, mas em log são \(-0.69\) e \(+0.69\) — mais simétrico
  3. Aproximação: para retornos pequenos (\(|R_t| < 0.1\)), \(r_t \approx R_t\)
  4. Normalidade: log-retornos se aproximam mais da distribuição normal

Fatos Estilizados de Séries Financeiras

Estas são regularidades empíricas observadas em praticamente todos os mercados financeiros ao redor do mundo:

flowchart TD
    R(("Fatos<br/>Estilizados"))
    R --> A["<b>Caudas pesadas</b><br/>Excesso de curtose<br/>Eventos extremos frequentes"]
    R --> B["<b>Clusters de volatilidade</b><br/>Períodos calmos e turbulentos<br/>Volatilidade persistente"]
    R --> C["<b>Efeito alavancagem</b><br/>Quedas geram mais volatilidade<br/>Medo > Euforia"]
    R --> D["<b>Sem autocorrelação nos retornos</b><br/>r_t quase i.i.d.<br/>Mas r_t² tem forte ACF!"]

    classDef root fill:#E50505,stroke:#3F3F3F,stroke-width:2px,color:#fff
    classDef fact fill:#ffffff,stroke:#3F3F3F,stroke-width:1.5px,color:#3F3F3F
    class R root
    class A,B,C,D fact

    linkStyle default stroke:#3F3F3F,stroke-width:1.5px

Mercado eficiente, random walk e volatilidade

Vale conectar o quarto fato estilizado — ausência de autocorrelação nos retornos — com um conceito que apareceu já na Aula 1 (random walk) e que é a base conceitual de praticamente toda finanças moderna: a hipótese do mercado eficiente (EMH).

Na sua versão mais comum (forma fraca), a EMH afirma que o preço atual já incorpora toda a informação contida no histórico de preços. A consequência estatística é simples e poderosa: se fosse possível prever a direção do próximo retorno a partir dos retornos passados, haveria uma oportunidade de arbitragem — traders a explorariam, e o padrão desapareceria. Em equilíbrio, portanto, a série de retornos deve ser aproximadamente não-autocorrelacionada.

Isso é exatamente o que observamos nos dados: a ACF dos retornos é tipicamente indistinguível de ruído branco. Equivalentemente, o preço segue aproximadamente uma random walk (a forma mais simples de processo não-estacionário que vimos na Aula 1), já que

\[P_t = P_{t-1} \exp(r_t), \qquad r_t \approx \text{ruído}.\]

Mas — e aqui está o ponto central desta aula — ausência de autocorrelação não é o mesmo que independência. Duas variáveis podem ser não-correlacionadas e ainda assim estatisticamente dependentes através de momentos de ordem mais alta. É exatamente isso que acontece com retornos financeiros: \(\text{Corr}(r_t, r_{t-k}) \approx 0\), mas \(\text{Corr}(r_t^2, r_{t-k}^2) \gg 0\).

O Paradoxo Fundamental

A EMH proíbe prever a direção do próximo retorno — mas não proíbe prever sua magnitude. Os retornos são quase não-correlacionados (compatível com mercado eficiente), mas os retornos ao quadrado têm ACF forte e persistente. Podemos prever a incerteza de amanhã, mesmo sem saber o sinal. Essa é a brecha que os modelos GARCH exploram: eles não quebram a EMH, eles operam exatamente no espaço que a EMH deixa livre.

Notação Formal: Média e Variância Condicional

Antes de formalizar os modelos, fixemos a notação que será usada em toda a aula (e na aula seguinte, sobre VaR). Seja \(\mathcal{F}_{t-1}\) o conjunto de informação disponível até \(t-1\) (preços, retornos, indicadores observados).

Média e variância condicional \[\mu_t = \mathbb{E}[r_t \mid \mathcal{F}_{t-1}], \qquad h_t = \operatorname{Var}(r_t \mid \mathcal{F}_{t-1}) = \mathbb{E}\!\left[(r_t - \mu_t)^2 \mid \mathcal{F}_{t-1}\right]\]

Ou seja, \(\mu_t\) é a previsão de \(r_t\) feita em \(t-1\) e \(h_t\) mede a incerteza em torno dessa previsão. Decompomos o retorno como

\[r_t = \mu_t + \varepsilon_t, \qquad \varepsilon_t = \sqrt{h_t}\, z_t, \qquad z_t \sim \text{i.i.d.}(0,1).\]

Toda a modelagem de volatilidade (ARCH, GARCH, EGARCH, SV, RiskMetrics) consiste em escolher uma forma funcional para \(h_t\) em função da informação passada. A média condicional \(\mu_t\) frequentemente é modelada como constante ou como um ARMA pequeno.

Duas previsões, não uma

Modelar uma série financeira envolve dois objetos: a previsão do retorno (\(\mu_t\)) e a previsão da incerteza (\(h_t\)). Para decisões de risco, \(h_t\) costuma ser mais importante que \(\mu_t\) — e muito mais previsível.

Modelo ARCH: A Ideia Original

Robert Engle (Nobel 2003) percebeu que a variância dos retornos financeiros muda ao longo do tempo de forma previsível:

ARCH(\(q\)) — Engle (1982) \[r_t = \mu + \varepsilon_t, \quad \varepsilon_t = \sigma_t z_t, \quad z_t \sim N(0,1)\] \[\sigma_t^2 = \omega + \alpha_1 \varepsilon_{t-1}^2 + \alpha_2 \varepsilon_{t-2}^2 + \cdots + \alpha_q \varepsilon_{t-q}^2\]

Em palavras: a volatilidade de hoje (\(\sigma_t^2\)) depende dos choques passados ao quadrado (\(\varepsilon_{t-i}^2\)). Se ontem houve um choque grande (positivo ou negativo), a volatilidade de hoje será alta.

Modelo GARCH: Adicionando Persistência

Tim Bollerslev (1986) generalizou o ARCH adicionando dependência da própria volatilidade passada:

GARCH(\(p,q\)) — Bollerslev (1986) \[\sigma_t^2 = \omega + \underbrace{\sum_{i=1}^{q} \alpha_i \varepsilon_{t-i}^2}_{\text{reação a choques}} + \underbrace{\sum_{j=1}^{p} \beta_j \sigma_{t-j}^2}_{\text{persistência}}\]

GARCH(1,1): O Modelo Mais Usado na Prática

Na esmagadora maioria dos casos, o GARCH(1,1) é suficiente:

\[\sigma_t^2 = \omega + \alpha \varepsilon_{t-1}^2 + \beta \sigma_{t-1}^2\]

Parâmetro Significado Valor típico
\(\omega > 0\) Nível base (“piso”) de volatilidade Pequeno e positivo
\(\alpha\) Reação a novos choques — “quanto a novidade importa” 0.03–0.10
\(\beta\) Persistência — “quanto o passado importa” 0.85–0.95
\(\alpha + \beta\) Persistência total — se \(< 1\), o processo é estacionário 0.95–0.99

Simulador interativo: GARCH(1,1)

Ajuste os parâmetros e veja como a volatilidade se comporta:

DicaExperimente!
  • \(\alpha\) alto (0.20) + \(\beta\) baixo (0.70): volatilidade reage muito a choques, mas não persiste — picos agudos e curtos
  • \(\alpha\) baixo (0.03) + \(\beta\) alto (0.95): volatilidade reage pouco a choques individuais, mas persiste muito — transições lentas entre regimes
  • \(\alpha + \beta \approx 1\): volatilidade extremamente persistente (IGARCH) — choques “nunca” desaparecem

IGARCH e RiskMetrics (EWMA)

Quando \(\alpha + \beta = 1\), o GARCH(1,1) degenera num IGARCH (integrated GARCH). Nesse caso, a variância de longo prazo \(\omega/(1-\alpha-\beta)\) deixa de existir: choques na volatilidade nunca se dissipam, exatamente como uma raiz unitária em séries de nível.

Impondo adicionalmente \(\omega = 0\) e reparametrizando \(\beta = \lambda\), \(\alpha = 1-\lambda\), obtemos exatamente a fórmula do RiskMetrics™ (J.P. Morgan, 1996):

RiskMetrics EWMA \[h_t = \lambda\, h_{t-1} + (1-\lambda)\, r_{t-1}^2, \qquad \lambda \in (0,1)\]

Isto é uma média móvel exponencialmente ponderada (EWMA) de retornos ao quadrado. O parâmetro padrão do RiskMetrics é \(\lambda = 0{,}94\) para dados diários e \(\lambda = 0{,}97\) para dados mensais — escolhidos por J.P. Morgan a partir de um ajuste a múltiplos ativos, sem estimação caso a caso.

NotaPor que o mercado adotou RiskMetrics?
  • Sem estimação: \(\lambda\) é fixo, basta calcular recursivamente — fácil de auditar
  • Parcimonioso: um único parâmetro governa toda a dinâmica de volatilidade
  • Recursão simples: \(h_t\) depende apenas de \(h_{t-1}\) e \(r_{t-1}^2\) (memória O(1))
  • Conservador: como \(\alpha + \beta = 1\), a volatilidade responde rapidamente a choques recentes

É o baseline universal em VaR regulatório — e o ponto de partida a ser batido por qualquer modelo mais sofisticado.

Variantes: Capturando Assimetria

O Efeito Alavancagem

Empiricamente, quedas no preço geram mais volatilidade que altas de mesma magnitude. Isso é chamado de efeito alavancagem (leverage effect): quando o preço cai, a razão dívida/equity da empresa sobe, aumentando o risco percebido.

O GARCH padrão não captura isso porque \(\varepsilon_{t-1}^2\) trata choques positivos e negativos igualmente. As variantes abaixo resolvem isso:

EGARCH: Nelson (1991)

EGARCH \[\ln(\sigma_t^2) = \omega + \alpha \left(\left|\frac{\varepsilon_{t-1}}{\sigma_{t-1}}\right| - \sqrt{2/\pi}\right) + \gamma \frac{\varepsilon_{t-1}}{\sigma_{t-1}} + \beta \ln(\sigma_{t-1}^2)\]

O parâmetro \(\gamma\) captura a assimetria: se \(\gamma < 0\), choques negativos (\(\varepsilon < 0\)) aumentam mais a volatilidade.

GJR-GARCH (Threshold GARCH)

GJR-GARCH — Glosten, Jagannathan & Runkle (1993) \[\sigma_t^2 = \omega + (\alpha + \gamma I_{t-1}) \varepsilon_{t-1}^2 + \beta \sigma_{t-1}^2\]

onde \(I_{t-1} = 1\) se \(\varepsilon_{t-1} < 0\). Mais intuitivo: choques negativos recebem peso extra \(\gamma\).

Comparativo

Modelo Assimetria Restrições nos parâmetros Quando usar
GARCH Não \(\alpha, \beta, \omega \geq 0\) Ponto de partida
EGARCH Sim (\(\gamma\)) Sem restrições de sinal Sempre vale testar
GJR-GARCH Sim (\(\gamma\)) \(\alpha + \gamma \geq 0\) Quando efeito alavancagem é forte

Distribuição dos Erros

Os retornos financeiros têm caudas mais pesadas que a normal. Alternativas:

Distribuição Quando usar Graus de liberdade
Normal Baseline (geralmente inadequada)
t de Student Caudas pesadas simétricas — mais comum \(\nu\) estimado (tipicamente 4–8)
Skewed-t Caudas pesadas e assimétricas \(\nu\) + parâmetro de assimetria

Volatilidade Estocástica: Quando \(h_t\) Tem Seu Próprio Choque

Em todos os modelos vistos até aqui (ARCH, GARCH, EGARCH, GJR, IGARCH), a volatilidade \(h_t\) é uma função determinística da informação passada: dado \(\mathcal{F}_{t-1}\), \(h_t\) é conhecido exatamente. A volatilidade é uma resposta mecânica aos choques observados nos retornos.

Os modelos de volatilidade estocástica (SV) partem de uma ideia diferente: a volatilidade é uma variável latente com seu próprio choque aleatório, não observável diretamente.

SV com log-volatilidade AR(1) \[r_t = \exp(h_t / 2)\, z_t, \qquad z_t \sim N(0,1)\] \[h_t = \mu + \phi (h_{t-1} - \mu) + \sigma_\eta\, \eta_t, \qquad \eta_t \sim N(0,1)\] com \(z_t \perp \eta_t\).

Aqui \(h_t\) denota a log-variância (por isso entra como \(\exp(h_t/2)\) no retorno) e segue um AR(1) com média \(\mu\), persistência \(\phi \in (-1,1)\) e inovação \(\sigma_\eta\). O choque \(\eta_t\) é distinto do choque do retorno \(z_t\): há duas fontes de aleatoriedade no sistema.

GARCH vs SV em uma frase

  • GARCH: “A volatilidade é o que os retornos observados me dizem que ela é.” (uma fonte de ruído)
  • SV: “A volatilidade tem vida própria — os retornos observados são apenas uma pista ruidosa.” (duas fontes de ruído)

Por que usar SV?

  • Captura melhor caudas extremas em algumas séries — o choque extra \(\eta_t\) permite saltos na volatilidade que o GARCH tem dificuldade de representar sem um choque enorme em \(r_t\)
  • Conexão direta com modelos de precificação de opções em tempo contínuo (Heston, Hull-White): o limite contínuo do SV-AR(1) é um processo de Ornstein-Uhlenbeck na log-variância
  • Interpretação de estado latente: a “volatilidade verdadeira” é um objeto inobservável estimado via filtragem (análogo ao filtro de Kalman)

Por que não é o padrão?

  • Estimação é cara: como \(h_t\) é latente, a verossimilhança envolve uma integral de alta dimensão. Na prática, usa-se MCMC (Markov chain Monte Carlo) ou filtros de partículas
  • GARCH(1,1) quase sempre dá conta do recado para aplicações de risco no dia a dia
  • Ferramentas menos difundidas: em R, o pacote stochvol implementa bem; em Python, o ecossistema é mais escasso (ex.: PyMC para implementação manual)
DicaQuando considerar SV
  • Séries com saltos bruscos de volatilidade que o GARCH sub-representa
  • Aplicações em precificação de opções onde o modelo de volatilidade precisa acoplar com um modelo contínuo
  • Pesquisa acadêmica e comparações de modelos — SV é um benchmark clássico

Toolkit de Diagnóstico

Ajustar um GARCH não é o fim do trabalho — é o começo da checagem. Os resíduos padronizados \(\hat z_t = \hat\varepsilon_t / \sqrt{\hat h_t}\) devem ser aproximadamente i.i.d. com a distribuição assumida (normal, \(t\), etc.). Quatro testes compõem o kit mínimo:

Teste O que checa Hipótese nula \(H_0\) Ação se rejeita
ARCH-LM (Engle) Heterocedasticidade residual em \(\hat z_t^2\) Sem ARCH restante Aumentar \(p, q\) do GARCH
Ljung-Box em \(\hat z_t\) Autocorrelação residual no nível Resíduos não correlacionados Modelar média \(\mu_t\) (ARMA)
Ljung-Box em \(\hat z_t^2\) Autocorrelação residual na variância Sem clusters restantes Aumentar ordem ou mudar família
Shapiro-Wilk / Jarque-Bera Normalidade dos resíduos padronizados \(\hat z_t\) normais Usar \(t\)-Student ou skewed-\(t\)
NotaRegra prática para os quatro testes
  1. ARCH-LM primeiro: se rejeita, o modelo não capturou a volatilidade — inútil olhar os outros
  2. Ljung-Box no nível: se rejeita, há estrutura na média que você ignorou
  3. Ljung-Box no quadrado: segundo filtro para garantir que \(h_t\) foi bem especificado
  4. Normalidade: quase sempre rejeita em retornos diários — é esperado e o remédio é trocar a distribuição, não o modelo de variância

Curtose amostral e skewness complementam os testes formais: retornos diários têm tipicamente curtose entre 4 e 10 (vs. 3 da normal).

Caso: Gestão de Risco em Fundo de Investimentos

Você é analista de risco com posições em PETR4, VALE3 e ITUB4. O gestor precisa de respostas claras:

  1. “Qual a volatilidade esperada para amanhã?” → Previsão do GARCH
  2. “Estamos num período de alta ou baixa volatilidade?”\(\sigma_t\) comparado à média histórica
  3. “Quedas afetam mais o risco que altas?” → Parâmetro \(\gamma\) do EGARCH/GJR
  4. “Em quanto tempo a volatilidade volta ao normal após um choque?” → Half-life: \(\ln(0.5) / \ln(\alpha + \beta)\)

Na Prática: Ajustando GARCH com arch em Python

Código
from arch import arch_model
import yfinance as yf

# Baixar retornos diários
precos = yf.download('PETR4.SA', start='2020-01-01', end='2025-01-01')['Close']
retornos = precos.pct_change().dropna() * 100  # em percentual

# ── Comparar modelos ───────────────────────────────────
modelos = {
    'GARCH(1,1) Normal': arch_model(retornos, vol='Garch', p=1, q=1, dist='normal'),
    'GARCH(1,1) t-Student': arch_model(retornos, vol='Garch', p=1, q=1, dist='t'),
    'EGARCH(1,1) t-Student': arch_model(retornos, vol='EGARCH', p=1, q=1, dist='t'),
    'GJR-GARCH(1,1) t-Student': arch_model(retornos, vol='GARCH', p=1, o=1, q=1, dist='t'),
}

resultados = {}
for nome, modelo in modelos.items():
    res = modelo.fit(disp='off')
    resultados[nome] = {
        'AIC': res.aic,
        'BIC': res.bic,
        'Log-Lik': res.loglikelihood,
    }
    print(f"\n{'='*50}")
    print(f"{nome}")
    print(f"AIC = {res.aic:.1f}, BIC = {res.bic:.1f}")
    print(res.summary().tables[1])

# ── Previsão de volatilidade ──────────────────────────
melhor = arch_model(retornos, vol='EGARCH', p=1, q=1, dist='t').fit(disp='off')
# EGARCH requer simulação para horizonte > 1
previsao = melhor.forecast(horizon=10, method='simulation', simulations=1000)
print("\nVolatilidade prevista (σ diário, %) para os próximos 10 dias:")
print(previsao.variance.iloc[-1].apply(lambda x: f"{x**0.5:.2f}%"))

==================================================
GARCH(1,1) Normal
AIC = 5681.8, BIC = 5702.3
                                Mean Model                                
==========================================================================
                 coef    std err          t      P>|t|    95.0% Conf. Int.
--------------------------------------------------------------------------
mu             0.2044  6.449e-02      3.169  1.530e-03 [7.797e-02,  0.331]
==========================================================================

==================================================
GARCH(1,1) t-Student
AIC = 5533.0, BIC = 5558.6
                                Mean Model                                
==========================================================================
                 coef    std err          t      P>|t|    95.0% Conf. Int.
--------------------------------------------------------------------------
mu             0.1775  5.496e-02      3.230  1.239e-03 [6.978e-02,  0.285]
==========================================================================

==================================================
EGARCH(1,1) t-Student
AIC = 5529.5, BIC = 5555.1
                                Mean Model                                
==========================================================================
                 coef    std err          t      P>|t|    95.0% Conf. Int.
--------------------------------------------------------------------------
mu             0.1685  5.376e-02      3.134  1.726e-03 [6.311e-02,  0.274]
==========================================================================

==================================================
GJR-GARCH(1,1) t-Student
AIC = 5531.7, BIC = 5562.5
                                Mean Model                                
==========================================================================
                 coef    std err          t      P>|t|    95.0% Conf. Int.
--------------------------------------------------------------------------
mu             0.1696  5.474e-02      3.099  1.943e-03 [6.234e-02,  0.277]
==========================================================================

Volatilidade prevista (σ diário, %) para os próximos 10 dias:
h.01    1.60%
h.02    1.62%
h.03    1.65%
h.04    1.68%
h.05    1.70%
h.06    1.72%
h.07    1.74%
h.08    1.76%
h.09    1.78%
h.10    1.79%
Name: 2024-12-30 00:00:00, dtype: str
DicaFluxo de trabalho recomendado
  1. Comece com GARCH(1,1) + t-Student como baseline
  2. Compare com EGARCH e GJR-GARCH via AIC/BIC
  3. Verifique se \(\gamma\) (assimetria) é significativo — se não for, fique com o GARCH padrão
  4. Sempre use distribuição t de Student (a normal quase nunca é adequada para retornos)
  5. Cheque os resíduos padronizados (\(z_t = \varepsilon_t / \sigma_t\)): devem ser i.i.d.

Quizzes: Teste seu Entendimento

A persistência é \(\alpha + \beta = 0.98\), muito alta. Isso significa que choques na volatilidade demoram muito para se dissipar. O half-life (tempo para o choque reduzir pela metade) é \(\ln(0.5)/\ln(0.98) \approx 34\) dias. Além disso, como \(\alpha\) é pequeno, a volatilidade reage pouco a choques individuais, mas mantém o nível por muito tempo — transições lentas entre regimes calmo e turbulento.

Sugere a presença de heterocedasticidade condicional (volatilidade que muda ao longo do tempo). Os retornos não são previsíveis em nível (mercado eficiente), mas sua variância é previsível — exatamente o cenário para modelos GARCH. Se a ACF dos retornos simples fosse significativa, haveria oportunidade de arbitragem (o que seria rapidamente eliminado pelo mercado).

O efeito alavancagem é significativo e negativo: choques negativos (quedas de preço) geram mais volatilidade que choques positivos de mesma magnitude. Em termos práticos, uma queda de 3% gera um aumento de volatilidade equivalente ao de uma alta de ~3.5% (dependendo dos demais parâmetros). Isso é consistente com a teoria: quando o preço cai, o risco percebido da empresa aumenta (maior alavancagem financeira).

Retornos financeiros apresentam excesso de curtose (caudas mais pesadas que a normal): eventos extremos ocorrem com mais frequência do que a normal prevê. A distribuição t, com seu parâmetro de graus de liberdade \(\nu\), consegue capturar essas caudas pesadas. Quanto menor \(\nu\), mais pesadas as caudas. Tipicamente, \(\nu\) é estimado entre 4 e 8 para retornos diários — significativamente diferente da normal (que é \(t\) com \(\nu \to \infty\)).

Usar normal subestima a probabilidade de eventos extremos, o que é perigoso para gestão de risco.

O processo é não estacionário em variância — a volatilidade não tem média de longo prazo para a qual reverter. Na teoria, \(\alpha + \beta\) deve ser \(< 1\) para estacionariedade. Na prática, estimativas ligeiramente acima de 1 podem ocorrer por erro amostral. Ações: (a) tente IGARCH (que impõe \(\alpha + \beta = 1\)); (b) verifique se há quebra estrutural na amostra; (c) considere usar uma amostra mais curta e homogênea.

RiskMetrics é um IGARCH(1,1) com \(\omega = 0\) e um valor fixo de \(\lambda\) (tipicamente 0,94 para dados diários). Partindo de \(h_t = \omega + \alpha r_{t-1}^2 + \beta h_{t-1}\) com \(\alpha + \beta = 1\) e \(\omega = 0\), reescrevemos como \(h_t = (1-\lambda) r_{t-1}^2 + \lambda h_{t-1}\), que é uma EWMA dos retornos ao quadrado. A vantagem prática é que não há estimação — basta uma recursão — e o modelo responde rapidamente a choques recentes. A desvantagem é supor persistência total (\(\alpha + \beta = 1\)), o que tipicamente superestima a volatilidade de longo prazo após choques isolados.

No GARCH, a volatilidade \(h_t\) é uma função determinística da informação passada: dados \(\varepsilon_{t-1}\) e \(h_{t-1}\), \(h_t\) é conhecido exatamente. Há uma só fonte de ruído (\(z_t\) no retorno).

No SV, a volatilidade é uma variável latente com seu próprio choque aleatório \(\eta_t\), independente do choque do retorno \(z_t\). Há duas fontes de ruído, e \(h_t\) nunca é observado — é estimado via MCMC ou filtros. Consequências: SV captura melhor certos saltos de volatilidade e conecta-se naturalmente a modelos contínuos de precificação de opções, mas sua estimação é muito mais cara. Para risco de mercado do dia a dia, GARCH(1,1) costuma ser suficiente.

Para Saber Mais

  • Tsay, R.S. (2010). Analysis of Financial Time Series, Cap. 3. Wiley.
  • Engle, R. (2001). GARCH 101: The Use of ARCH/GARCH Models in Applied Econometrics. Journal of Economic Perspectives.
  • Francq, C. & Zakoïan, J.M. (2019). GARCH Models: Structure, Statistical Inference and Financial Applications. 2nd ed. Wiley.
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